Dragon Age pode ganhar trilogia remasterizada, mas um dos principais responsáveis diz que projeto está cada vez mais distante

Ex-produtor da franquia revela que chegou a imaginar uma coleção nos moldes de Mass Effect: Legendary Edition, mas problemas técnicos e falta de profissionais familiarizados com os motores antigos dificultam o projeto

A ideia de reunir os três primeiros jogos de Dragon Age em uma coleção remasterizada parece, à primeira vista, uma escolha óbvia para a Electronic Arts. Afinal, Mass Effect: Legendary Edition mostrou que uma trilogia clássica da BioWare pode receber tratamento moderno e voltar a despertar o interesse do público.

Mas, segundo Mark Darrah, veterano da BioWare e um dos principais responsáveis pelos primeiros jogos da franquia, transformar esse plano em realidade seria muito mais complicado do que simplesmente melhorar os gráficos.

Darrah revelou que chegou a imaginar uma coleção chamada “Champion’s Edition”, reunindo Dragon Age: Origins, Dragon Age II e Dragon Age: Inquisition. Hoje, porém, ele acredita que as chances de isso acontecer são pequenas.

A ideia era criar uma espécie de “Legendary Edition” de Dragon Age

Durante sua passagem pela BioWare, Darrah tinha um plano bastante parecido com o que a empresa posteriormente fez com Mass Effect: Legendary Edition.

A proposta seria reunir os três primeiros capítulos de Dragon Age em uma única coleção, tratando-os como uma trilogia e dando aos jogos uma atualização compatível com plataformas modernas.

A coleção teria até um nome pensado por Darrah: Champion’s Edition.

A ideia seria transformar retroativamente os três jogos em uma trilogia coesa, com cada título representando uma figura importante daquele universo.

Em teoria, seria uma oportunidade perfeita.

Dragon Age: Origins chegou em 2009, Dragon Age II em 2011 e Dragon Age: Inquisition em 2014. Com mais de uma década desde o lançamento do primeiro jogo, principalmente Origins poderia se beneficiar bastante de melhorias visuais e técnicas.

O próprio Darrah acredita que uma versão remasterizada poderia vender muito bem, justamente porque o primeiro jogo envelheceu consideravelmente em termos gráficos.

O problema está escondido justamente no código desses jogos.

Por que Mass Effect teve uma vantagem enorme?

O caso de Mass Effect: Legendary Edition é diferente.

Os três jogos da trilogia foram construídos utilizando Unreal Engine 3, o que criou uma base tecnológica relativamente consistente para trabalhar na remasterização.

Dragon Age seguiu um caminho completamente diferente.

Os três jogos utilizam tecnologias distintas:

  • Dragon Age: Origins — Eclipse Engine, baseada na antiga tecnologia Aurora;
  • Dragon Age II — Lycium Engine;
  • Dragon Age: Inquisition — Frostbite.

Ou seja, uma equipe responsável pela coleção teria que lidar com três ambientes tecnológicos diferentes.

Isso torna o projeto muito mais complexo.

Não seria simplesmente pegar três jogos, aumentar a resolução das texturas e melhorar a iluminação.

Seria necessário entender profundamente tecnologias que já não fazem parte do desenvolvimento moderno da BioWare.

“Basicamente não há ninguém” que conheça o antigo motor

Esse é provavelmente o maior obstáculo.

Darrah afirma que praticamente ninguém dentro da BioWare atualmente possui conhecimento suficiente sobre a Aurora Engine, tecnologia que serviu de base para o desenvolvimento dos primeiros jogos.

E a situação não seria muito diferente fora do estúdio.

Segundo o veterano, também existem poucas empresas externas capazes de ajudar com esse tipo de tecnologia antiga.

Isso significa que a Electronic Arts não poderia simplesmente contratar uma equipe especializada em remasterizações e entregar o projeto.

Seria necessário reconstruir boa parte desse conhecimento.

Na prática, seria quase como montar uma equipe do zero.

Uma equipe nova teria que ser criada

Darrah explica que um projeto desse tamanho provavelmente exigiria uma nova equipe especializada.

Só que existe outro problema.

Se a EA quisesse desenvolver a coleção dentro da própria BioWare, precisaria colocar funcionários para trabalhar nela — profissionais que, consequentemente, deixariam de trabalhar em outros projetos.

E atualmente a BioWare possui uma prioridade muito clara: o próximo Mass Effect.

O estúdio está concentrado no desenvolvimento do novo capítulo da franquia de ficção científica, tornando ainda mais difícil imaginar uma equipe sendo deslocada para uma remasterização de Dragon Age.

Mas existe uma opinião diferente

Apesar do pessimismo de Darrah, outro veterano da BioWare apresentou uma visão menos definitiva.

Trent Oster, cofundador da BioWare e atualmente CEO da Beamdog, afirmou que uma remasterização de Dragon Age é tecnicamente possível.

Oster possui uma perspectiva particularmente relevante porque esteve diretamente envolvido com as tecnologias utilizadas nos primeiros jogos.

Ele afirmou que, tendo liderado o desenvolvimento dos dois motores que foram utilizados na construção de Dragon Age: Origins e Dragon Age II, considera o projeto possível — embora esteja longe de ser uma tarefa simples.

Ou seja, existe uma diferença importante entre dizer “não pode ser feito” e dizer “não vale a pena fazer neste momento”.

A opinião de Oster se encaixa muito mais na segunda categoria.

O problema não é apenas técnico

Além da tecnologia, existe uma questão comercial.

O último jogo da franquia, Dragon Age: The Veilguard, lançado em 2024, teve desempenho comercial abaixo das expectativas da EA. Isso torna mais difícil justificar um investimento significativo em uma grande remasterização.

Darrah chegou a demonstrar preocupação com o futuro da própria franquia.

Em outra declaração recente, o ex-produtor afirmou que não vê muita gente dentro da BioWare atualmente preparada para apresentar um novo projeto de Dragon Age e questionou se a EA teria interesse em retomar a série.

Para uma empresa que possui diversas propriedades intelectuais, uma remasterização pode acabar competindo internamente por orçamento e profissionais com projetos considerados mais prioritários.

E Dragon Age: Origins seria o grande beneficiado

Mesmo com todos esses obstáculos, existe um argumento bastante forte a favor da coleção.

Dragon Age: Origins é justamente o jogo que mais se beneficiaria de uma remasterização.

O título continua sendo considerado por muitos fãs um dos melhores RPGs da BioWare, mas seus gráficos e algumas de suas tecnologias revelam claramente sua idade.

Darrah acredita que uma versão atualizada poderia vender muito bem justamente porque existe uma quantidade considerável de elementos visuais que poderiam ser melhorados.

Uma remasterização poderia modernizar:

  • resolução e texturas;
  • iluminação;
  • interface;
  • modelos de personagens;
  • compatibilidade com hardware atual;
  • desempenho;
  • controles;
  • áudio;
  • suporte a plataformas modernas.

E tudo isso sem necessariamente alterar a experiência original.

Mas existe uma questão ainda maior: remake ou remaster?

Esse problema também levanta uma discussão interessante.

Se a EA realmente tivesse que reconstruir boa parte da tecnologia de Dragon Age: Origins, talvez fosse necessário investir tanto trabalho que uma simples remasterização deixasse de fazer sentido.

Nesse cenário, a empresa poderia acabar diante de duas alternativas.

Remasterizar: preservar o jogo original e modernizar principalmente aspectos técnicos.

Refazer: reconstruir partes significativas do jogo utilizando uma tecnologia moderna.

A segunda opção seria consideravelmente mais cara e arriscada.

Por outro lado, poderia resolver justamente o problema que Darrah aponta: em vez de tentar ressuscitar tecnologias antigas, uma equipe poderia reconstruir a experiência utilizando ferramentas atuais.

A nostalgia poderia jogar a favor da EA

Existe ainda um fator que pode pesar a favor do projeto: o atual interesse por RPGs clássicos.

O sucesso de Baldur’s Gate 3 ajudou a colocar novamente os RPGs de computador no centro das atenções.

Uma coleção contendo Origins, Dragon Age II e Inquisition poderia apresentar a franquia para uma nova geração que talvez nunca tenha experimentado os primeiros jogos.

Isso é especialmente relevante para Dragon Age: Origins.

O jogo possui sistemas, escolhas e estruturas narrativas bastante diferentes de The Veilguard, e uma versão atualizada poderia funcionar tanto como produto nostálgico quanto como porta de entrada para novos jogadores.

Por enquanto, nada foi anunciado

É importante destacar que não existe atualmente um anúncio oficial de uma trilogia remasterizada de Dragon Age.

A informação vem de uma ideia que existiu dentro da própria BioWare e das avaliações de veteranos da franquia sobre a possibilidade de transformar esse conceito em realidade.

Darrah é pessimista e acredita que as dificuldades técnicas, a falta de profissionais familiarizados com os motores antigos e a atual situação da BioWare tornam o projeto improvável.

Oster, por outro lado, afirma que é possível, embora reconheça que não seria uma tarefa trivial.

Portanto, a situação é mais complicada do que simplesmente “a EA não quer fazer”.

Ela pode querer — mas precisaria descobrir como fazer.

Uma oportunidade que pode estar sendo perdida

Uma trilogia remasterizada de Dragon Age poderia ser exatamente o tipo de projeto que fãs antigos desejam.

Origins, Dragon Age II e Inquisition representam três fases muito diferentes da história da BioWare e poderiam voltar em uma única coleção, seguindo o caminho de Mass Effect: Legendary Edition.

Mas existe uma ironia nessa história.

A mesma equipe que criou os jogos e que poderia ajudar a modernizá-los foi se dispersando ao longo dos anos.

Hoje, boa parte do conhecimento necessário para trabalhar nos motores antigos simplesmente não está mais disponível dentro da BioWare.

E é justamente isso que pode impedir que uma das franquias mais importantes da história dos RPGs receba o tratamento que seus fãs estão pedindo.

A trilogia remasterizada de Dragon Age não parece impossível. O problema é que, neste momento, ela parece ser difícil demais para a EA considerar o investimento.

E, enquanto a BioWare concentra seus esforços no próximo Mass Effect, a ideia de uma Champion’s Edition permanece, por enquanto, apenas como um projeto que um dos antigos responsáveis pela franquia gostaria de ter realizado.

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