Após o sucesso gigantesco do RPG da Larian, a Hasbro procura uma equipe para continuar a franquia, mas até mesmo veteranos de Baldur’s Gate 2 recusaram a oportunidade
O sucesso de criou um problema bastante curioso para a indústria: todo mundo quer saber como será o próximo jogo, mas aparentemente ninguém quer ser o estúdio responsável por fazê-lo.
A Larian Studios já deixou claro que não pretende desenvolver Baldur’s Gate 4 e decidiu seguir outro caminho com seu próximo projeto. Desde então, a Hasbro e a Wizards of the Coast começaram a procurar uma equipe capaz de assumir uma das franquias de RPG mais importantes dos videogames.
O problema é que o legado deixado por Baldur’s Gate 3 é gigantesco.
E alguns dos estúdios considerados para o projeto simplesmente chegaram à conclusão de que competir com o jogo da Larian seria uma loucura.
Larian não fará Baldur’s Gate 4
Para entender a situação, é preciso voltar à decisão da Larian.
Depois de anos trabalhando em Baldur’s Gate 3, o estúdio decidiu abandonar a franquia e retornar ao universo próprio de Divinity.
A decisão foi confirmada mesmo depois de a Larian ter começado a trabalhar em ideias para uma possível continuação.
A empresa também encerrou o desenvolvimento de novo conteúdo narrativo para Baldur’s Gate 3 após a atualização 8, explicando que precisava seguir em frente para poder criar seus próximos jogos.
Mais recentemente, a Larian voltou a reforçar que não está envolvida em nenhum projeto relacionado a Baldur’s Gate 3.
Isso deixou a propriedade intelectual nas mãos da Wizards of the Coast e da Hasbro, que agora precisam encontrar outro estúdio.
E essa tarefa parece estar sendo muito mais complicada do que o esperado.
Até os criadores de Baldur’s Gate 2 disseram não
Um dos casos mais interessantes envolve James Ohlen, um dos principais designers de Baldur’s Gate 2.
Ohlen e Kevin Martens, ambos veteranos da BioWare, atualmente estão envolvidos com a Archetype Entertainment.
Depois que a Larian decidiu não fazer Baldur’s Gate 4, o próprio CEO da Hasbro, Chris Cocks, entrou em contato com Ohlen para perguntar se a equipe estaria interessada em assumir o projeto.
A resposta foi negativa.
E o motivo deixa bastante claro o tamanho do problema.
Segundo Ohlen, competir diretamente com Baldur’s Gate 3 seria “insanidade”.
A situação é especialmente irônica porque Ohlen ajudou a criar justamente um dos jogos que estabeleceram a reputação da franquia.
Mesmo alguém com experiência direta em Baldur’s Gate não parece disposto a enfrentar as expectativas criadas pelo terceiro jogo.
Por que Baldur’s Gate 3 tornou a situação tão difícil?
O problema não é simplesmente fazer um bom RPG.
O problema é fazer um RPG que será inevitavelmente comparado com Baldur’s Gate 3.
O jogo da Larian estabeleceu um padrão extremamente alto para:
- narrativa;
- liberdade de escolha;
- quantidade de personagens;
- diálogos;
- animações;
- atuação;
- exploração;
- combate baseado em D&D;
- consequências das decisões;
- interação com o cenário;
- multiplayer cooperativo.
Além disso, Baldur’s Gate 3 conseguiu levar o gênero CRPG para um público muito maior do que normalmente alcançaria.
Por isso, qualquer estúdio que assumir Baldur’s Gate 4 terá que responder a uma pergunta complicada:
como fazer uma sequência sem simplesmente tentar copiar Baldur’s Gate 3?
Owlcat não fugiria do desafio
É justamente nesse ponto que surge um dos nomes mais interessantes da indústria: Owlcat Games.
O estúdio é conhecido por RPGs como Pathfinder: Wrath of the Righteous e Warhammer 40,000: Rogue Trader, além de estar trabalhando em Warhammer 40,000: Dark Heresy e The Expanse: Osiris Reborn.
Por isso, quando o assunto é escolher um possível desenvolvedor para Baldur’s Gate 4, a Owlcat naturalmente aparece entre os candidatos.
E, ao contrário de outros estúdios, a empresa não parece assustada com a ideia.
Durante uma entrevista à IGN, o diretor criativo e cofundador da Owlcat, Alexander Mishulin, foi questionado justamente sobre a possibilidade.
A resposta foi bastante diferente daquela dada pelos responsáveis pela Archetype.
Mishulin afirmou que considera o projeto um “grande desafio” e brincou que a equipe da Owlcat é um pouco “masoquista”.
Isso, porém, não significa que a Owlcat tenha recebido ou aceitado uma proposta para desenvolver Baldur’s Gate 4.
Até agora, não existe anúncio oficial nesse sentido.
Mas a Owlcat faria algo diferente
O mais interessante na declaração de Mishulin é que ele não acredita que o próximo Baldur’s Gate deveria simplesmente tentar reproduzir o trabalho da Larian.
Para ele, isso seria justamente o caminho para o fracasso.
A ideia é que cada estúdio possui sua própria identidade.
A Larian desenvolveu uma fórmula extremamente particular em Baldur’s Gate 3. Outro estúdio tentando copiar exatamente essa fórmula provavelmente produziria apenas uma imitação.
Mishulin defende que o próximo desenvolvedor deveria colocar seu próprio DNA, suas próprias ideias e sua própria visão no universo de Baldur’s Gate.
E essa talvez seja a melhor maneira de fazer uma continuação.
Baldur’s Gate 4 não precisa ser Baldur’s Gate 3.5
Existe uma diferença importante entre uma sequência e uma cópia.
Se a Wizards of the Coast realmente quiser que Baldur’s Gate 4 tenha sucesso, provavelmente será necessário aceitar que o jogo não será igual ao título da Larian.
Uma nova equipe terá tecnologias diferentes, designers diferentes e outra maneira de trabalhar.
A própria história da franquia mostra isso.
Baldur’s Gate, Baldur’s Gate 2 e Baldur’s Gate 3 foram desenvolvidos por equipes diferentes e em épocas completamente distintas.
Ainda assim, todos conseguiram construir suas próprias identidades.
O problema agora é que Baldur’s Gate 3 alcançou um nível de popularidade que torna qualquer comparação inevitável.
A franquia ainda terá um quarto jogo?
Apesar de todos esses obstáculos, Baldur’s Gate 4 parece ser uma questão de “quando”, e não de “se”.
A propriedade pertence à Wizards of the Coast, e o sucesso comercial de Baldur’s Gate 3 tornou praticamente inevitável que a empresa queira continuar explorando a franquia.
O que ainda não sabemos é quem vai assumir a responsabilidade.
A Larian não quer.
A Archetype recusou.
A Owlcat demonstrou disposição para considerar o desafio, mas não confirmou nenhum acordo.
E existe ainda a possibilidade de a Wizards estar conversando com outros estúdios que ainda não foram revelados publicamente.
O peso das expectativas
O caso de Baldur’s Gate 4 mostra uma situação rara na indústria.
Normalmente, quando um jogo se torna um enorme sucesso, outros desenvolvedores disputam a oportunidade de trabalhar em sua sequência.
Aqui está acontecendo praticamente o contrário.
O sucesso de Baldur’s Gate 3 foi tão grande que o jogo se transformou no maior obstáculo para seu próprio sucessor.
Qualquer equipe que assumir Baldur’s Gate 4 terá que lidar com comparações inevitáveis.
Se o jogo tiver menos liberdade, será criticado.
Se tiver gráficos inferiores, será criticado.
Se os personagens forem menos carismáticos, será criticado.
Se as escolhas tiverem menos consequências, será criticado.
E se tentar copiar exatamente a Larian, também poderá ser criticado por falta de identidade.
O caminho da Owlcat pode ser justamente o mais interessante
Por isso, a postura da Owlcat chama tanta atenção.
Em vez de prometer que faria um Baldur’s Gate 3 ainda maior, Mishulin parece defender uma abordagem diferente: deixar a Larian ser a Larian e permitir que outro estúdio seja ele mesmo.
Isso poderia resultar em um Baldur’s Gate 4 muito diferente.
Talvez com uma estrutura mais próxima dos antigos CRPGs.
Talvez com sistemas de RPG ainda mais profundos.
Talvez com uma narrativa menos cinematográfica e mais focada em escolhas.
Ou até mesmo com mecânicas que a própria Larian jamais utilizaria.
E isso poderia ser justamente o que a franquia precisa.
O futuro ainda está indefinido
Por enquanto, entretanto, é importante não transformar especulação em confirmação.
Baldur’s Gate 4 não foi anunciado oficialmente, e a Owlcat não foi confirmada como desenvolvedora do projeto.
O que sabemos é que a Hasbro está interessada em continuar a franquia, que a Larian decidiu seguir seu próprio caminho e que pelo menos um estúdio abordado diretamente recusou a oportunidade.
Enquanto isso, a Owlcat declarou que estaria disposta a considerar o desafio caso ele surgisse.
E existe uma ironia interessante nessa história.
Talvez o melhor caminho para Baldur’s Gate 4 seja justamente parar de tentar superar Baldur’s Gate 3.
O terceiro jogo já existe e continuará sendo lembrado como uma obra extremamente importante para os RPGs.
O próximo capítulo não precisa ser maior.
Não precisa ser mais cinematográfico.
Não precisa copiar a Larian.
Ele simplesmente precisa ser um bom Baldur’s Gate feito por uma equipe que tenha coragem de colocar sua própria identidade na franquia.
E, considerando a resposta da Owlcat, pelo menos um estúdio parece disposto a aceitar esse desafio.



